Crianças na cozinha

11 dez

Programa “Junior Master Chef Austrália”  traz crianças na faixa etária de 8 a 12 anos para competirem como adultos na cozinha

Sabrina Demozzi

O programa Master Chef é uma produção britânica que foi adaptada pela produtora australiana “Shine Australia” em 2010. Ele tem basicamente todas as características dos  reality shows e programas de competição de cozinha com juízes, temas diversos a serem cumpridos, etc, etc. A diferença é que ao contrário do Top Chef exibido pela Sony, Master Chef não é protagonizado por chefs profissionais, mas sim por entusiastas e pessoas que acreditam que cozinham bem. No programa elas são julgadas por suas habilidades e criatividade na execução das preparações. Os juízes não têm o mesmo carisma de Tom, Padma e Eric Ribert de Top Chef, ao contrário, com exceção de um ou outro todos são afetadíssimos, cheios de pompa e circunstância.

Poderia ser apenas mais um programa de TV ruim, o fato é que além de prestar um desserviço para a gastronomia por estimular apenas a competição e não o conhecimento gastronômico (Carlos Alberto Dória no seu excelente blog cita um texto do filósofo Robert Redeker que fala sobre isso- Cozinha hiper-midiática não é boa para a gastronomia) o programa contribui para passar uma imagem bastante equivocada da carreira de chef.

A primeira temporada foi veiculada em julho de 2010. 5000 crianças se inscreverem e 50 foram escolhidas para participar das competições. As crianças são submetidas a provas de cozinha condizentes com a sua idade e julgadas. É uma gritaria, uma bagunça, a platéia berrando. Um circo, enfim. (Com todo o respeito ao circo, ok?). Poderia ser uma competição de qualquer coisa, cozinha é só um tema. Como o filósofo Robert Redeker escreve “Em “Master Chef” – assim como em “jantar quase perfeito” na M6 – TF1, não se valoriza a cozinha, mas a competição. Na verdade, transforma-se a cozinha num avatar do espectáculo desportivo para destruí-lo. Assim, como nos reality shows, “Master Chef” celebra o culto da concorrência, a lei do mais forte, desloca violentamente a atividade culinária para o universo da máxima bárbara: “o homem é o lobo do homem. ” (Tradução de Carlos Alberto Dória)

Já pensou isso considerando que os competidores são crianças? Quem se beneficia com uma pressão dessas aos 8, 9 anos de idade? Tudo bem que no programa umas crianças que até gostam de cozinhar e tal, eu mesma com 9 anos já cozinhava e sempre gostei, mas daí a estimular essa competição nessa idade,  será mesmo saudável? Será que essa criança que foi submetida a esse processo vai se tornar um grande chef ou a derrota no programa pode fazê-la desconfiar de suas capacidades e torná-la alguém problemática em relação a sua auto-estima? Ainda que se apregoe que não há “perdedores” na competição, não sei até que ponto uma competição pensada para adultos pode ser benéfica para crianças que nem sabem ainda o que querem fazer da vida. E elas são cobradas no programa: a textura dessa cenoura não está boa, esse molho não está ideal e assim por diante… Como elas podem responder a isso se o “treinamento” pelo qual elas passaram provavelmente vem de casa,  das preparações das mães e das avós, que salvo raríssimas exceções não possuem técnica formal de cozinha.

Pra quem não tem TV a cabo tem alguns episódios no YouTube. Confiram e vejam o que acham. Vou colocar aqui o vídeo com a chamada do programa pra vocês irem se ambientando com o negócio. No final da semana vou sugerir alguns sites e livrinhos pra quem vai fazer a ceia e quer gastar pouco, ok?

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