O Padeiro do Rubem Braga

5 mar

 

Eu até ia fazer uma tentativa de crônica, mas encontrei um dos textos que me fizeram escolher a profissão de jornalista e desisti do trabalho. Trata-se do texto “O Padeiro” do cronista Rubem Braga. Para quem não sabe “O Padeiro” é uma dentre centenas de crônicas do senhor Rubem Braga que, na minha modesta opinião, soube florear o cotidiano como ninguém. Preste atenção como este texto é simples e ao mesmo tempo é de uma grandeza sem igual. Retirei esta crônica daquele livrinho “Para Gostar de Ler” que tinha um pintinho na capa.  Bem, vamos ler o texto de quem entende do riscado. Com vocês, o padeiro do Rubem Braga.  

 

 

O Padeiro

Levanto cedo, faço minhas abluções, ponho a chaleira no fogo para fazer café e abro a porta do apartamento – mas não encontro o pão costumeiro. No mesmo instante me lembro de ter lido alguma coisa nos jornais da véspera sobre a “greve do pão dormido”. De resto não é bem uma greve, é um lock-out, greve dos patrões, que suspenderam o trabalho noturno; acham que obrigando o povo a tomar seu café da manhã com pão dormido conseguirão não sei bem o que do governo.  

Está bem. Tomo o meu café com pão dormido, que não é tão ruim assim. E enquanto tomo café vou me lembrando de um homem modesto que conheci antigamente. Quando vinha deixar o pão à porta do apartamento ele apertava a campainha, mas, para não incomodar os moradores, avisava gritando:  – Não é ninguém, é o padeiro!  Interroguei-o uma vez: como tivera a idéia de gritar aquilo?  “Então você não é ninguém?”  Ele abriu um sorriso largo. Explicou que aprendera aquilo de ouvido.

Muitas vezes lhe acontecera bater a campainha de uma casa e ser atendido por uma empregada ou outra pessoa qualquer, e ouvir uma voz que vinha lá de dentro perguntando quem era; e ouvir a pessoa que o atendera dizer para dentro: “não é ninguém, não senhora, é o padeiro”. Assim ficara sabendo que não era ninguém…  

Ele me contou isso sem mágoa nenhuma, e se despediu ainda sorrindo. Eu não quis detê-lo para explicar que estava falando com um colega, ainda que menos importante. Naquele tempo eu também, como os padeiros, fazia o trabalho noturno.

Era pela madrugada que deixava a redação de jornal, quase sempre depois de uma passagem pela oficina – e muitas vezes saía já levando na mão um dos primeiros exemplares rodados, o jornal ainda quentinho da máquina, como pão saído do forno.  Ah, eu era rapaz, eu era rapaz naquele tempo! E às vezes me julgava importante porque no jornal que levava para casa, além de reportagens ou notas que eu escrevera sem assinar, ia uma crônica ou artigo com o meu nome.

O jornal e o pão estariam bem cedinho na porta de cada lar; e dentro do meu coração eu recebi a lição de humildade daquele homem entre todos útil e entre todos alegre; “não é ninguém, é o padeiro!”E assobiava pelas escadas.  

Texto extraído do livro: Para gostar de ler, Vol I -Crônicas . Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Rubem Braga. 12ª Edição. Editora Ática. São Paulo. 1989. P.63 – 64. 

  

 

 

 

 

 

 

 

 

pao.jpg

 

 

 

   

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27 Respostas to “O Padeiro do Rubem Braga”

  1. nathalia março 16, 2009 às 1:54 pm #

    Adoreii esse texto Muito Legal ! de mais !

    • jean maio 21, 2010 às 5:31 pm #

      adorei esse texto è bom
      pode lê ele q vc vai gostar

  2. mayra cristina dos santos julho 27, 2009 às 9:24 pm #

    Nossa,essa crÔnica é de mais eu adoro ela,não só pelo conteudo mais por tela estudado desda setima série e cada vez que eu estudei-a sobre ela ficava cada vez mais encantada nossa a lição que ela nos passa a dar valor aos sentimentos dos outros é fantastica.
    Olha Rubem parabem pelo trabalho.,dou a ele nota dez.

    com carinho Mayra Cristina dos Santos
    15 anos,São Paulo-Varzea Paulista

  3. gabriel agosto 24, 2009 às 12:42 am #

    bah! minha prof mando copiar esse texto e responder a perguntas é muito chato : (

    to na 7ª serie

    falou!

    Obrigada Gabriel, por você visitar meu blog e comentar. Você acha chato esse texto? Se puder, me manda umas coisas bacanas que você curta pra eu poder agradar você também!

    Bom domingo e tudo de bom.

  4. gabriel agosto 25, 2009 às 1:32 am #

    me entenderão mal!!!

    o texto é tri legal ja li ele umas sete vezes

    o que é chato é a minha prof fica mandando ler e responder varios textos parece a terceira-serie!!!

    ta abraços ! humm

  5. ana vitoria setembro 21, 2009 às 4:36 pm #

    sera que vcs poderia me da uma ajuda?

    qual a primeira reação dp padeiro diante da pergunta do autor???

    preciso desa resposta ainda hj!!!
    se vc estiver um tempinho e me da esa ajuda
    agradesso
    bjimmmm

  6. temperomental setembro 21, 2009 às 5:08 pm #

    Olha só Ana Vitória: O padeiro não tinha maldade nenhuma e então sua resposta era a mais verdadeira e sincera que podia ser dada. Foi essa pureza e sinceridade que encantaram Rubem Braga.

    Ajudei?

    beijão!

  7. GABRIELA outubro 8, 2009 às 12:02 am #

    Oi tudo bem??
    eu gostaria de saber se voc poderia responder minha pergunta sobre esta crônica quais sãp as personagens e em que 1º pessoa ela está
    muito obrigada !!

  8. Ana Vitoria outubro 29, 2009 às 11:06 pm #

    (6. temperomental )Concerteza você me ajudou muinto
    desculpe por soh responde agora
    não tive tempos
    brigadinha ai!!!

  9. temperomental março 25, 2010 às 6:36 pm #

    Não se trata de sentido conotativo, uma vez que o texto não tem linguagem figurada. O autor usa recursos estilísticos próprios da crônica: crônica está entre o estilo jornalístico e literário, que é o caso do autor.

    Abraço.

  10. temperomental junho 17, 2010 às 12:51 pm #

    Olá, bom dia

    Olha só: Obrigada por comentar no blog, mas não posso ajudar. Como pode ver este é um blog de gastronomia e não literatura. Usei este texto porque tem relação com o que escrevo mas isso não quer dizer que tenho que analisar o texto. Infelizmente, não entendo de literatura, apenas gosto de ler.

    ATT.
    Sabrina

  11. vini junho 22, 2010 às 12:57 am #

    Muito muito bom esse texto eu tenho 15 anos e adorei esse texto…

  12. vini junho 22, 2010 às 12:59 am #

    Muito muito legal essa crônica mostra como o padeiro é sincero e humilde..shushsuhssu adorei
    tenho 15 anos e adorei..

  13. eu setembro 13, 2010 às 10:48 am #

    gostei muito do texto

  14. marineis setembro 13, 2010 às 10:54 am #

    gostei d+++++++++++ da cronica

  15. felipe abril 5, 2011 às 3:26 pm #

    legal eu gostei e muito bom e vai ser vir por meu trabalho de portugues

    • felipe abril 5, 2011 às 3:26 pm #

      certo

    • felipe abril 5, 2011 às 3:30 pm #

      tenho 11 anos na 7 serie e gostei do texto aposto que o proximo vai adorar

  16. Cássia NPS abril 28, 2011 às 3:03 pm #

    Eu adorei! xD

    • temperomental abril 29, 2011 às 1:08 pm #

      Que bom!

      Fico feliz que tenha gostado.
      bom final de semana!

  17. Mayani Syndell maio 1, 2011 às 9:42 pm #

    AMEI O TEXTO BEM CRIATIVO VCS ESTAO DE BARABEMS

  18. daniel novembro 7, 2011 às 6:55 pm #

    Pessoal quero saber:
    sobre a fala da empregada ela tinha intensão de ofender o padeiro

    • temperomental novembro 8, 2011 às 10:44 am #

      Daniel,

      Provavelmente não é ofensa, mas é até uma inocência na resposta, um “não perceber”, uma coisa dita fora de hora. Não é ofensa não.

  19. josiane junho 1, 2012 às 3:52 pm #

    É uma crônica ou um texto literario

    • temperomental junho 12, 2012 às 10:44 am #

      Josiane,

      COmo você pode ver este é um blog de gastronomia, eu apenas utilizei este texto como referência. Não posso afirmar, mas acho que crônica é um gênero literário. Para tirar toda a dúvida é melhor pesquisar.

      Abraço.

  20. Barbara Portela junho 11, 2012 às 10:56 pm #

    Tenho 11 anos e preciso escrever uma cronica,estava pesquisando para tirar algumas ideias e cai aqui,amei!

    • temperomental junho 12, 2012 às 10:42 am #

      Barbara, que bom que você gostou. Tenho certeza que melhor “professor” para crônicas do que Rubem Braga não há… Aproveite para ler outras obras do autor e veja se você encontra alguma que ajude a escrever a sua.

      Um abraço e obrigada, apareça sempre que quiser.

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