Ovo

14 out

Quando a gente menos espera descobrem alguma coisa nova sobre a alimentação. Meses atrás descobriram que adoçante podia engordar e também começaram a pipocar na TV programas que falavam da tal “comida viva”. Anos atrás condenaram o café e hoje dizem que pelo menos 1 xícara diária faz bem para a concentração. Vinho faz bem para o coração. Azeite de oliva ajuda a desentupir as artérias. Na crônica abaixo, Luiz Fernando Veríssimo faz uma observação bem humorada sobre estas descobertas e faz uma reivindicação sobre o direito de comer um antigo “vilão” causador de colesterol,  o ovo. Vale a pena dar uma lida:     

 

Ovo

Luiz Fernando Veríssimo

 Agora essa. Descobriram que ovo, afinal, não faz mal. Durante anos, nos aterrorizaram. Ovos eram bombas de colesterol. Não eram apenas desaconselháveis, eram mortais. Você podia calcular em dias o tempo de vida perdido cada vez que comia uma gema.

            Cardíacos deviam desviar o olhar se um ovo fosse servido num prato vizinho: ver ovo fazia mal. E agora estão dizendo que foi tudo um engano, o ovo é inofensivo. O ovo é incapaz de matar uma mosca. A próxima notícia será que bacon limpa as artérias.

            Sei não, mas me devem algum tipo de indenização. Não se renuncia a pouca coisa quando se renuncia a ovo frito. Dizem que a única coisa melhor do que ovo frito é sexo. A comparação é difícil. Não existe nada no sexo comparável a uma gema deixada intacta em cima do arroz depois que a clara foi comida, esperando o momento de prazer supremo quando o garfo romperá a fina membrana que a separa do êxtase e ela se desmanchará, sim, ela se desmanchará, e o líquido quente e viscoso se espalhará pelo arroz como as gazelas douradas entre os lírios de Gileade nos cantares de Salomão, sim, e você levará o arroz à boca e o saboreará até o último grão molhado, sim, e depois ainda limpará o prato com o pão. Ou existe e eu é que tenho andado na turma errada. O fato é que quero ser ressarcido de todos os ovos fritos que não comi nestes anos de medo inútil. E os ovos mexidos, e os ovos quentes, e as omeletes babadas, e os toucinhos do céu e, meu Deus, os fios de ovos. Os fios de ovos que não comi para não morrer dariam variam voltas no globo. Quem os trará de volta? E pensar que cheguei a experimentar ovo artificial, uma pálida paródia de ovo que, esta sim, deve ter me roubado algumas horas de vida a cada garfada infeliz.

            Ovo frito na manteiga? O rendado marrom das bordas tostadas da clara, o amarelo provençal da gema… Eu sei, eu sei. Manteiga ainda não foi liberada. Mas é só uma questão de tempo.

 Esta crônica foi retirada do livro: A Mesa Voadora editado pela Objetiva em 2001. O texto está nas Págs. 65-66. É um daqueles livros com compilações de textos com temas específicos de Luiz Fernando Veríssimo. Esse fala das experiências gastronômicas do autor. É aquele que tem a capa amarela e a ilustração é o Veríssimo feito de massinha sentado em um prato. O livro tem 47 crônicas e quem quiser comprar sai em média R$ 30,00.         

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