Crítica: atividade em falta no Jornalismo Gastronômico

22 mar

Sabrina Demozzi

O que faz um crítico gastronômico?  Em resumo avalia com base em critérios muito específicos a qualidade de um restaurante levando em conta o serviço, as técnicas utilizadas, a execução de pratos, a escolha de ingredientes, o ambiente e também a higiene. Para falar de tudo isso, um crítico tem que ter muita experiência gastronômica, tem que conhecer a fundo as técnicas culinárias, e também escrever bem.  O crítico caracterizado muitas vezes como figura impiedosa e cruel, é essencial para a gastronomia, pois é a partir de algumas observações feitas por ele que é possível fazer mudanças, trocar cardápios, decoração, pessoal etc.;  

Tive a oportunidade de conhecer alguns textos de um dos maiores críticos de todos os tempos: Manuel Vásquez Montalbán. Ele escrevia como ninguém e sua formação cultural permitia que ele passeasse por diversos temas inclusive gastronomia.  Muitas vezes a gastronomia vinha de forma indireta e em outras era mais evidenciada.  Elegante, sutil e adorado por chefs, jornalistas e historiadores. Por outro lado, há quem não suporte a crítica. E nunca é demais relembrar a história  de Bernard Loiseau, chef e proprietário do restaurante La Côte d’Or, na cidade de Saulieu na Borgonha. 

Ele foi encontrado morto em sua casa aos cinquenta e dois anos de idade — “aparentemente”, havia cometido suicídio. O que o motivou a fazer isso? Em janeiro de 2003, o colunista do Le Figaro, François Simon publicou uma nota que especulava que o restaurante de Loiseau, La Côte d´Or, poderia ser rebaixado no Guia Michelin e também no   Gaultmillau. Para um chef que batalhou a vida inteira pela perfeição na cozinha esse boato (que veio se confirmar como pura especulação) foi demais e ele tirou a própria vida com uma arma que havia ganho de sua mulher.

São dois lados de uma mesma profissão que tem na sua opinião o poder de enaltecer, melhorar e nos instigar a conhecer  um restaurante, lanchonete, serviço etc. Ou não. Ou pelo menos, falar a verdade. Ou tentar.  E é aqui que o bicho pega. Imagine um mundo em que a crítica não existe- falamos aqui em especial da crítica gastronômica, óbvio-   um mundo onde tudo é bom, bacana e tendência. Onde a gastronomia está em tudo e sem critérios, onde a palavra gourmet virou sinônimo de  qualquer coisa e o esnobismo está em tudo com aura de coisa pop e cult. A “gastronomialização da comida”, como disse um amigo meu, tornou o prazer de comer e preparar refeições um saco.

 Eu não tenho a pretensão de ser crítica gastronômica não só porque tenho 27 anos de idade e estou me formando ainda em Gastronomia. Já tentei fazer isso e vi o quanto é difícil. Eu preciso de muitos e muitos anos de viagens, estudos e conhecimento pra pensar nisso. Mas, acredito que minha formação como jornalista me ajuda a pensar porquê alguns temas não são sequer questionados no jornalismo de gastronomia. Se outras editorias pedem análises distintas nos campos sociais, econômicos, históricos e outros porque só a gastronomia, em alguns jornais, tem essa aura de hedonismo, de luxo e de prazer? Será que é só isso? Será que é justo um jornal publicar um “serviço” (sim, porque isso não é crítica) apenas enaltecendo as qualidades do lugar (que em muitos casos não tem) e tirar fotos que apenas privilegiem a matéria, sem refletir a realidade do estabelecimento? Cadê a análise de técnicas, preço, ambiente, cardápio, serviço e outros pertinentes em uma crítica?

Mas nem tudo está perdido. Ainda há um deleite em ler críticos do New York Times, do The Guardian, do El País, da Folha. Em ler textos do Carlos Alberto Dória, Henrique Carneiro, Massimo Montanari, Josimar Melo. Ver programas do Anthony Bourdain e até do Gordon Ramsay. E claro, conferir vez ou outra a pena afiada de um Manuel Vásquez Montalbán em textos como os encontrados em “Contra los Gourmets”. Quem mais escreveria? “La vida es una borrachera y la muerte su resaca.”

 

Anúncios

3 Respostas to “Crítica: atividade em falta no Jornalismo Gastronômico”

  1. Andre Fontana março 23, 2011 às 3:42 am #

    Os críticos existem em todas as partes, mas os que realmente querem realizar uma crírica construtiva e com um embasamento comprovado – aí sim FODEU! – tem poucos. O que gostaria é que pelo menos em Curitiba tenha uma parte de crítica decente para poder escolher os lugarem aonde comeremos e não supostas críticas – inúteis – onde só há elogios COMPRADOS por donos/chefs de restaurantes propagandas. Abraço Sá, essa foi ótima. ;P

    • temperomental março 23, 2011 às 10:25 am #

      Meu querido,

      Tudo o que você falou é a mais pura verdade. E você trabalhando na área é corajoso de comentar aqui. Obrigada por comentar e vamos debater! Chega de palhaçada.

Trackbacks/Pingbacks

  1. Qual é o papel da crítica em um mundo em que todo mundo critica? « Temperomental’s Weblog - março 9, 2012

    […] falei sobre o papel do crítico gastronômico neste post aqui, mas levanto um debate hoje  que me parece pertinente: criticar por criticar sem embasamento […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: