Sobre a comida da mamãe

4 maio

A importância da comida de mãe traz significados que compreendem aspectos da memória gustativa, da cultura e da tradição alimentar

No romance de Marcel Proust “Em Busca do Tempo Perdido” o autor traz um exemplo clássico do que vem a ser a memória gustativa. Em suas reminiscências, ele se lembra do sabor das madeleines, delicados biscoitinhos franceses que desmancham na boca, e dos momentos que a lembrança desse biscoito traz. Ele diz: Aquele gosto era o do pedaço de madeleine que nos domingos de manhã em Combray (pois nos domingos eu não saía antes da hora da missa) minha tia Leôcia me oferecia, depois de o ter mergulhado no seu chá ou de tília, quando ia cumprimentá-la em seu quarto.”

Grosso modo, a memória gustativa é a lembrança que temos de algum sabor, refeição ou prato que nos remetem a uma, ou algumas situações do nosso passado, sejam elas boas ou ruins. Acredito que a “comida da mãe” está intimamente relacionada a esse conceito, pois levamos para nossa vida adulta, lembranças do que comemos na infância e acreditamos em muitos casos, que não há melhor comida do que a preparada pela nossa mãe.

Podemos afirmar que toda mãe tem uma história alimentar. No caso da minha mãe, que é filha de caboclos, a comida tem um traço forte da culinária popular brasileira: muito feijão, carne de porco, arroz branco, milho, farinha, açúcar, coco, mandioca e gordura animal. Eu não poderia esperar que minha mãe me servisse Cassoulet pra jantar. Da cultura passada para minha mãe vem o hábito de preparar quase tudo em casa: o pão, os bolos, biscoitos, conservas etc.; Matar as galinhas (eu já depenei galinha!), o porco, o coelho (tadinho). Na minha casa há o costume de plantar e colher os alimentos e também de distribuir comida entre vizinhos, amigos e chegados em geral.

Minha amiga Alina escreveu uma vez sobre o feijão da mãe dela. No lindo texto, ela dizia que nada era tão bom e que lembrar e comer aquele feijão despertava várias sensações nela. Quem não se lembra da cena graciosa do filme Ratatouille, em que o crítico Anton Ego, faz uma reminiscência em relação ao prato que intitula o filme preparado pela mãe. Ele, um homem amargurado pelos anos de crítica ferrenha aos outros, volta a sua infância, um tempo de inocência e possibilidades, em que ternamente é servido pela sua mãe. Apenas ele e ela na cozinha, uma luz entrando no ambiente e um silêncio de conforto. Quando Ego volta desse flashback ele não é mais o mesmo.

A comida de mãe tem uma importância hoje que considero essencial. Com a correria e o excesso de informação, o fato de alguém se dispor a cozinhar pra gente é um privilégio para poucos. A mãe que cozinha e pode fazer isso está ensinando ao filho não apenas como se alimentar bem, mas transmitindo por meio da comida uma relação de afeição, cuidado e bem querer.

Para mim, a comida tem significado vasto. Realmente pouco me importo se ela é gourmet , se custa os tubos ou se o restaurante é estrelado. A comida tem que ser autêntica, verdadeira. Não tem que ser classificada como isso ou aquilo. Se há algo que acho que a comida de mãe tem para transmitir aos gastrochatos de plantão, é que a comida tem que ser verdadeira, real, com alma. A comida de mãe pra mim explora ao máximo dessas possibilidades. E também o fato de que em tempos difíceis, inventar era tudo o que tinha que ser feito pra se sobreviver.

Assim, longa vida à comida da mamãe.

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