Arquivo | junho, 2011

E quando o franqueado não dá conta?

28 jun

Falhas no atendimento, higiene precária e produtos questionáveis são alguns dos pontos que além de prejudicar a marca ainda colaboram para que o modelo de negócio seja colocado em cheque

Eu tenho um caderninho onde anoto impressões dos lugares que costumo frequentar para comer, não sou crítica de restaurantes, mas sim consumidora e estudante da área de gastronomia. Me sinto no direito de analisar alguns pontos, portanto. Já faz algum tempo que além das minhas impressões venho anotando o que as pessoas falam de restaurantes/ lanchonetes tipo fast food de franquias diversas. E o que eu percebo não é bom.

No ano passado fui a um desses franqueados e pedi para verificar um dos ingredientes: a carne tinha um tom azulado, estava pegajosa e fosca. Um negócio assustador. Perguntei a moça no balcão e ela me disse: – “Já vem da matriz assim. Eu só tiro do pacote.” Em outro estabelecimento no mesmo bairro, o sanduíche levava cream cheese em sua preparação, ele estava azedo, com a coloração meio estranha e cheirando mal. Reclamei e recebi a resposta de que cream cheese é assim mesmo. Mas, não é mesmo.

Um amigo meu foi a um estabelecimento em um shopping de alto padrão em Curitiba e dirigiu-se a um franqueado de sanduíche. Demorou 25 minutos para ser atendido, o chão estava sujo e quando recebeu o que pediu, veio trocado. Em um desses franqueados o chão também estava imundo, os funcionários estavam se “pegando” no balcão e o gerente gritava como doido. Em outra loja todo dia às 14h os funcionários estão passando pano no chão em um local minúsculo, os clientes tem que se esquivar dos baldes e vassouras enquanto almoçam. Não sei vocês, mas pra mim isso parece enxotar o cliente. Sem contar que é só há um funcionário nesse horário que não dá conta de atender todo mundo. É preciso esse sujeito gritar de onde está para chamar os que estão lá dentro.

E tem o fator que considero mais prejudicial: a falta de cuidado do franqueado com os produtos da marca. Tem um produto que se tornou franquia há pouco tempo. O que eu lembro dele e também o que as pessoas falavam é que não tinha nada igual. De fato, era algo diferenciado, caseiro, de muita qualidade. Não vou falar o nome da empresa aqui, por motivos éticos, mas já fui a pelo menos umas 4 lojas só no Paraná e em todas há diferença. Você pode me dizer: mas é claro que vai ser diferente. Sim, mas a qualidade foi totalmente comprometida. Em uma dessas lojas a funcionária mal olha na cara dos clientes. O produto em questão é duro, frio, sem sabor. E olha que ele foi conhecido como um dos melhores do Brasil. O balcão está lascado, os cartazes estão desbotando e os produtos deixam muito a desejar.

Esses são só alguns dos exemplos. Vou parar, porque senão isso aqui vai ficar muito longo. Não sou especialista em franquias, mas entendo o mínimo necessário sobre um estabelecimento de alimentação. A franquia é uma das formas, a meu ver, mais interessantes de se divulgar um produto, uma marca, um serviço. Dependendo do investimento que se dispõe, local e outros fatores é realmente uma grande oportunidade de negócio para qualquer pessoa. Porém, acho interessante que esses detalhes sejam percebidos, pois cliente mal atendido não volta mais e pior espalha isso pelo Twitter, Facebook e no boca-a-boca também. Fiz um exercício esses dias e vi tanta gente reclamando de estabelecimentos franqueados nas redes sociais que eu me pergunto como o departamento de marketing ou sei lá relações públicas da empresa não vê um negócio desses? Em tempo: responder o contato do cliente por email também é válido. Tenho conhecidos que mandaram email para uma famosa rede de fast food e há 6 meses, exato, 6 meses, ainda não receberam nenhuma resposta.

Vamos continuar anotando, mandando email e xingando muito no Twitter. Alguma coisa, uma hora, eles vão ter que fazer.

*Quem tiver algum relato manda pra mim. Isso é bem importante!

Sobre a humildade

10 jun

Sabrina Demozzi

 

Uma vez vi um documentário sobre cultura popular em que Antônio Nóbrega visitava algumas regiões no Brasil e conversava com as pessoas. Em uma cena, um senhor vai receber o Antônio e ao cumprimentá-lo, fala seu nome e completa: “meu nome é tal (não lembro) “seu criado”. Antônio educadamente responde: Muito prazer e aqui não tem criado de ninguém não…

Acho que nunca vi na televisão brasileira um exemplo tão genuíno de humildade. Um espaço onde tanta gente acha que é tanta coisa, lembro que guardei essa cena e fora esquecer os detalhes, carrego comigo a lição que ela passa.

Estou me formando em curso de Tecnologia em Gastronomia na PUC-PR daqui a três semanas. Já sou formada em Jornalismo há 5 anos. Nas duas profissões o ego é um acompanhante quase que inevitável. Hoje, porém falo de como é preciso ensinar humildade para os futuros chefs de cozinha. E isso se ensina? Não estou falando de preceitos religiosos ou auto-ajuda aqui, mas um exercício de humildade deveria existir.

Vejo alunos que não admitem serem contrariados por professor e que acreditam que porque estão pagando tem o direito de copiar trabalhos e apresentar qualquer coisa. São esses que não leem, não se informam e que fazem uma faculdade de dois anos e meio porque precisam de um diploma. Sabemos que isso acontece em todos os cursos, claro, mas, no caso da gastronomia me parece interessante levantar a questão de que tipo de profissionais serão formados.

O mesmo cara que diz que é chef  é o cara que frita camarão ao invés de saltear. O que quero dizer: uma técnica básica que exige apenas atenção e concentração é feita de forma errada porque simplesmente o sujeito não ouve. Eu também de vez em quando acabo me rendendo às provocações do meu egocentrismo (que dorme, mas não morre), mas juro que tento ser o mais humilde possível.

Em um ambiente onde a perícia técnica somada a outros fatores, claro, é determinante para se classificar quem é melhor e quem é pior, é inevitável que alguém com mais habilidade queira se sobressair, mas acredito realmente que o sujeito que sai por aí alardeando que é o melhor, não passa de alguém buscando afirmação. Quem é bom, e é reconhecido não precisa ficar falando.

Para a ordem natural das coisas atualmente sujeito bom é o sujeito que aparece. E a coisa caminha pra isso mesmo.

Por isso, toda vez que me bate a vontade de dar uma de babaca eu me lembro daquela cena e me coloco no meu lugar.

“Muito prazer e aqui não tem criado de ninguém não…”

 

Gastronomia Responsável e o que você tem a ver com isso

5 jun

Aproveitar alimentos, evitar o desperdício e valorizar produtos locais são algumas das ações que norteiam os princípios da Gastronomia Responsável

Isso que sua avó ou seus pais já faziam há anos agora tem um novo nome: Gastronomia Responsável. Uma breve explicação sobre os princípios foi dada pelo chef Celso Freire na Semana Acadêmica na PUC-PR na terça-feira, (31). Bastante semelhante à filosofia do Slow Food, o movimento fundado por Carlo Petrini que em 1986 se tornou uma associação internacional sem fins lucrativos em 1989 e atualmente conta com mais de 100.000 membros e tem escritórios na Itália, Alemanha, Suíça, Estados Unidos, França, Japão e Reino Unido, e apoiadores em 132 países. De forma bem simplificada, o Slow Food acredita na democratização do alimento e no respeito às tradições e heranças culinárias. O Slow Food segue o conceito da ecogastronomia, reconhecendo as fortes conexões entre o prato e o planeta.  (Fonte: http://www.slowfoodbrasil.com)

Celso Freire e a cozinheira Guega. Crédito da Imagem: Gazeta do Povo

O chef Celso Freire conhece bem a fundo as particularidades desse movimento já que foi um dos líderes honorários do Convivium Slow Food no Paraná em 2008. Agora em parceria com a Fundação Boticário procura divulgar a “Gastronomia Responsável” pelo Paraná e também em São Paulo. De acordo com informações no site www.gastronomiaresponsavel.com.br a filosofia da Gastronomia Responsável busca por meio de 4 preceitos básicos convidar os chefs a aliarem alta gastronomia e conservação da natureza. Para o restaurante levar o selo de responsável deve utilizar produtos orgânicos, evitar o desperdício, utilizar produtos regionais e não usar espécies que estão em extinção.

É interessante que esse tipo de iniciativa aconteça aqui em Curitiba. Uma cidade que desenvolveu a cultura gastronômica de forma significativa nos últimos 10 anos e que ainda está aprendendo com a evolução. Alguém na platéia perguntou ao Celso Freire o que ele achava em relação ao “modismo” desse tipo de movimento. Ele respondeu que se for moda e se for passageiro, não vai durar, mas que vai trabalhar para que seja levado a sério. Movimentos similares a esse já existem e discussões sobre o assunto já são bem conhecidas do público que acompanha esse tipo de notícia.

E o que nós temos a ver com isso? Como consumidores devemos buscar sempre estabelecimentos que nos respeitam, como produtores devemos procurar respeitar a natureza e como profissionais da cozinha temos o dever de evitar o desperdício e aproveitar melhor o alimento. Eu acredito que já na escola (pública inclusive) os alunos deveriam ter noções de produção do alimento desde a plantação até a preparação, pois assim desde cedo aprenderiam a dar o devido valor ao alimento.

Espero realmente que essa iniciativa seja encarada de forma positiva e que ela dê possibilidades para quem deseja mudar o cenário da gastronomia no Brasil. Por outro lado, vejo que vai ser preciso muito trabalho nesse sentido no Paraná, uma vez que ainda estamos caminhando em busca de firmar nossa identidade no cenário gastronômico brasileiro. Mas que é possível, isso é.