Heston’s Feasts: vale tudo em nome do espetáculo?

5 jul

Sabrina Demozzi

O risco que se corre ao criticar um chef como Heston Blumenthal é enorme, por isso, vou criticar o seu programa de TV que passa no canal FOX Life, já que nunca provei de suas “alquimias”. Heston’s Feasts é um programa que tem como mote reproduzir com técnicas contemporâneas banquetes do passado. Do passado, pode ser a década de 70 como o período dos banquetes promovidos por Henrique VIII no século XVI durante a dinastia Tudor.

Quando falamos em banquete a primeira coisa que passa em nossa cabeça é a exuberância, o exagero. Historicamente, acredito, não poderia deixar de ser diferente já que os banquetes têm toda aquela relação com o sagrado, às oferendas aos deuses e também as descobertas gastronômicas. Se eu não me engano, foi no livro do J.A Dias Lopes “A Canja do Imperador”, que li algo sobre os exageros das festas da corte de Henrique VIII. Exagero para nós, forma de representação do alimento para eles. Os animais vinham empalhados na mesa, os franguinhos ainda conservavam a cabeça, havia mistura de carnes e uma infinidade de alimentos. Os banquetes duravam horas. Assim como na Roma Antiga, em que os banquetes eram festas que duravam o dia inteiro.

Com base nessa premissa, o Heston tem esse programa no canal Fox Life. Já assisti a alguns e procurei depois na internet os outros. Especialmente esse que passou no domingo, 14h30/15h, me deixou meio assim. Ele numa tentativa de recriar os excessos dos jantares dos Tudor´s leva uma galinha e um leitãozinho a uma sala de cirurgia. Ele busca nessa “brincadeira” recriar os basiliscos que são seres fantásticos com corpo de serpente e cabeça de dragão. Esses “seres” eram recriados nos banquetes dos Tudor´s. Então, ele pede a um cirurgião para cortar o porco na altura de cintura, e costurar a parte de baixo de um frango. Nesse meio tempo, o cirurgião vai dando detalhes de como ele costura uma pessoa e que essa técnica pode ser empregada pra “emendar” o frango no porco.

Daí o “gênio” Heston Blumenthal sai por Londres e vai até uma kebaberia pra um tiozinho assar esse troço. Pessoas param e querem comer isso. Ele serve e se diverte horrores. Pra finalizar, ele vai até o seu restaurante onde convida pessoas que vão adulá-lo durante o jantar todo com palavras como “mago”, “gênio”, “brilhante”, “brincalhão” e prepara uma refeição à moda dos Tudor´s. Quando eu achei que ver um porco metade frango já era demais, eis que ele prepara uma espécie de terrine com várias carnes e coloca dentro de um animal que ele inventou, detalhe: o animal é tipo um porco do mato com asas e ele pede a um taxidermista que reproduza esse animal colocando pêlos, dentes e tudo. Então ele serve as pessoas em um ambiente teatralmente montado, esse bicho. Gritinhos, pulinhos, palmas. É o espetáculo do constrangimento.

Vi gente fazer cara de muito nojo e não achar a menor graça na brincadeira. Claro, que depois todo mundo elogia. Não duvido que estivesse excelente. Mas a pessoa que estava ao meu lado assistindo ao programa achou as preparações do “alquimista” no mínimo constrangedoras. Eu, fiquei com o estômago embrulhado vendo aquele negócio. Um porco metade frango? Uma sobremesa, tecnicamente perfeita, é a representação “orgástica” numa referência ao ser mitológico do sexo e da luxúria. Tipo um bolo que ejacula. E que Heston apelidou de “bolo ejaculante”.

Vou postar os vídeos e quem tiver um tempo dá uma olhada, e tira suas próprias conclusões.  Sem dúvida nenhuma Heston é um grande chef. Com domínio apuradíssimo de técnicas e criatividade. Ele sabe fazer seu show. Eu que não entendo disso, mas sei do que eu gosto, achei tudo muito forçado. Indigesto até. A idéia do programa é interessante, em meio a tanta repetição de programas culinários, ele com certeza se destaca pela inovação e por sua interpretação das receitas históricas. Mas que eu não tenho que achar super bacana um porco metade frango em pleno século 21 ah, isso eu não tenho. No alto da minha ignorância sinto que ainda não estou preparada para isso. Veremos, porém.

 

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Uma resposta to “Heston’s Feasts: vale tudo em nome do espetáculo?”

  1. Bruno Vertuoso julho 7, 2011 às 3:26 am #

    Veremos.

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