Arquivo | outubro, 2011

Não existe almoço grátis

28 out

Sabrina Demozzi

Dias desses recebi uma promoção por email de um site de compras coletivas que anunciava 1 pizza grande e mais uma garrafa de vinho de R$ 99,90 por R$ 59,90. A pizza em questão era uma Napolitana e a garrafa de vinho era uma das mais baratas do mercado. Já vi rodízios de R$ 49,90 por R$ 19,90, caixas de doces de R$ 34,90 por R$ 18,00 e por aí vai. Mas, qual é o problema nisso tudo?

O IDEC- Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor publicou uma matéria intitulada “Desrespeito Coletivo” na qual revela a falta de respeito dos grandes sites de compras coletivas com o consumidor. Colocarei abaixo o link da matéria que mostra como a pesquisa foi feita. Dos problemas apontados como cadastro obrigatório de email, não acesso ao contrato de compra, utilização indevida de dados pessoais, ausência de sac e outros, tem um em especial que é muito recorrente e deve ser denunciado: trata-se do que eles chamam de desconto maquiado, prática a qual me refiro no começo desse post.

Olha só o trecho da matéria:

“Já ao contatar o fornecedor do serviço oferecido pela Groupalia – um buffet de restaurante mexicano -, a informação obtida é de que ele custa R$ 19,90, e não R$ 49,90, conforme foi anunciado pelo site de compras coletivas. Assim, o desconto de 60% oferecido pelo site é falso, já que o valor indicado como promocional é, na verdade, o preço real do serviço”

Quem nunca percebeu isso ou desconfiou de valores excessivamente baixos ou altos anteriormente? Como é que pode um rodízio de pizzas custar R$ 59,90 ou um prato executivo custar R$ 64,90? O estabelecimento que faz esse tipo de marketing deveria não só ser punido por propaganda enganosa como também ter seu nome levado a público. Aí sim, o tiro ia sair pela culatra. Além disso, a pesquisa mostrou que há relatos de consumidores que disseram sentir-se constrangidos em estabelecimentos ao falar que pagariam a conta com o cupom do site de compras coletivas. Eu já fui discriminada e conheço quem foi. E você?

Essa pesquisa é importante por mostrar o outro lado do oba a oba dos sites de compras coletivas. Credito grande parte da responsabilidade a proprietários mal-intencionados que tratam o consumidor como idiota. Será que eles nunca pensaram que alguém ligaria no estabelecimento e perguntaria o valor real do serviço oferecido? E, além disso, quem é que venderia alimentos a preços tão baixos? E o custo com matéria prima e pessoal? A cozinha? Desconfiem pois não existe almoço grátis.

Confira a matéria do IDEC no link: http://www.idec.org.br/rev_idec_texto_impressa.asp?pagina=1&ordem=1&id=1428    

 

Tapas não são aperitivos feitos com pão velho

21 out

Sabrina Demozzi

Tapas são uma variedade de pequenas porções de alimentos

Tapas são uma espécie de “entradinhas” de origem espanhola que servem como um “forra estômago” antes da refeição principal. De acordo com a história das “Tapas” encontrada no site “El Mundo de Las Tapas” para ser considerada uma tapa de verdade ela deve ser servida entre as refeições principais e como um alimento que “permite ao corpo aguentar até a refeição ser servida ou antes do jantar”. Ainda de acordo com o site, as tapas nasceram, de acordo com alguns autores, por causa da doença do rei espanhol Alfonso X, o sábio, que foi obrigado a comer pequenas porções de alimento com pequenos goles de vinho. Ele gostou do hábito e mesmo depois de curado achou interessante combinar o vinho com alimentos assim, pois em muitos casos o efeito da bebida era intensificado, pois as pessoas não conseguiam pagar por uma refeição propriamente dita.

Porém, os autores do site defendem a teoria de que as tapas nasceram da necessidade dos agricultores e trabalhadores de ingerir um “pequeno alimento” durante sua jornada de trabalho que permitiriam que eles continuassem trabalhando até a hora da refeição principal.  

Quando na Espanha se popularizaram as tabernas e bodegas a tradição das tapas se consolidava conforme as instruções do Rei Alfonso. O nome “tapa” teria surgido do hábito de cobrir a garrafa de vinho que costumava acompanhar as refeições com um pedaço de presunto (jámon), uma rodela de melão ou um pedaço de queijo e evitar assim que caíssem impurezas e insetos na bebida e também garantir um alimento sólido para acompanhar o vinho.

Você não vê pão velho aqui, vê?

As receitas das tapas variam muito de região para região, mas alguns ingredientes são comuns como as azeitonas grandes recheadas, frutos secos, pão amanhecido, embutidos, conservas, lombo, frutas, o presunto ibérico, peixe, frutos do mar, ovos, verduras e legumes em geral. Com o tempo variedades foram surgindo e acrescentando frituras às preparações como os “sonhos” de bacalhau, croquetes e bolinhos. Escabeches também surgiram, assim como as tortilhas de batata e variações.

Crítica ao pão velho com patê

Mesmo que pareça simples fazer as tapas, é preciso considerar todo um cuidado na hora de escolher ingredientes, preparar as “salsas” e montá-las. Não custa nada dourar levemente o pão e esfregar nele um dente de alho ou uma pastinha feita com alho e salsa, tomate, um talo de salsão…  Mas, para alguns restaurantes aqui em Curitiba patê mal feito em cima de pão velho e preço absurdo é tapa. Além da falta de proximidade com a tradição e a falta de qualidade de itens essenciais para a preparação, como o caso do presunto ibérico.

É louvável um restaurante que busca inovar trazendo a cultura espanhola para a cidade. Porém, merece crítica o fato de que se não há a possibilidade de servir o que se pretende de forma adequada, é melhor não fazer. Pois além de prejudicar a imagem do restaurante, ainda contribui para que as pessoas acreditem que tapas são “restos de pão com algo em cima” e não deem o merecido valor que o alimento possui.

Neste link: http://www.arrakis.es/~jols/tapas/index1.html há algumas receitas de tapas para quem quiser conhecer. A maioria delas é fácil de reproduzir e elas são uma opção interessante para quem vai fazer um evento em casa: não custa caro, podem ser servidas antes da refeição principal ou apenas acompanhar um vinho, uma sangria.

“No suprises- Radiohead” no cardápio do dia

15 out

Quanto tempo leva pra gravar um programa de gastronomia?

15 out

Uma das “ondas” dos programas atuais de gastronomia é ensinar as pessoas a cozinharem com poucos ingredientes, de forma rápida e acessível. O Jamie Oliver tem um programa no qual ensina as pessoas a fazerem refeições completas com entrada, prato principal e sobremesa em 30 minutos. A Nigella em seu “Nigella Express” também parte desse princípio em que cozinha tudo em tempo recorde. É bem possível cozinhar nesse tempo desde que tudo esteja previamente pré-preparado, não concordam? Por exemplo: a Nigella preparou um aperitivo para uma amiga com lulas empanadas e maionese de alho. Ela pega a lula do congelador que já está cortada em anéies, limpa e a prepara. Como a proposta do programa não é ensinar técnicas avançadas, ela só mistura tudo e serve. Inclusive rala o alho na maionese comprada pronta. Assim realmente se faz tudo em 30 minutos.

Um bom programa de gastronomia deve nos passar a impressão de que o que está sendo feito é fácil de reproduzir em casa e que o chef é tão hábil que não erra a preparação. Aí é que está. Os chefs na TV contam com equipes de profissionais que cuidam da parte “chata” do trabalho que é higienizar, cortar e porcionar tudo. Em uma cozinha também é assim. Nós, os iniciantes, fazemos essa parte. E também cada chef de partie  (chef de seção). Para um programa de TV é preciso um cuidado maior ainda.

Para gravar um programa de gastronomia precisa-se além de um chef que será o protagonista pelo menos mais uns 10 profissionais: uma produtora de cena, um produtor de alimentos (cenográficos ou reais), um diretor de cena, um assistente de direção,  um ou dois cinegrafistas dependendo do tipo de programa, um maquiador, um sonoplasta, um diretor de fotografia, um roteirista e um diretor de arte se for o caso. Isso considerando o programa já aprovado pra rodar porque antes disso ainda tem coordenação de produção, gerente de projetos e por aí vai. Edição, pós-produção etc, etc.

Um programinha de meia hora só com captação de imagens em set leva aí uma média de umas 3 horas. Chutando baixo. Isso porque é preciso preparar tudo antes. Capturar cada take. Pense em uma receita aparentemente simples: mousse de chocolate. Precisa-se: uma receita pronta sem decoração, outra decorada. Um take dos ovos sem estar batidos e um deles batidos no ponto ideal. Chocolate picado. O chocolate derretido. O creme de leite. O creme de leite misturado ao chocolate. Tudo sendo misturado. Leva-se a geladeira. A receita que está pronta é gravada. Decora-se e apresenta-se a decorada. A outra a equipe come…

Claro que isso varia de programa para programa, mas basicamente é assim. Chefs do porte de um Claude Troisgros raramente vão errar uma receita, mas não dá pra confiar só na sorte e habilidade quando se trata de vídeo. Qualquer coisinha fica feia no vídeo, então é preciso muito trabalho para tudo dar certo. Vou confessar uma coisa pra vocês: eu fiz uns programinhas aí de receita em que eu aparecia e eu detesto aparecer, como meus chegados sabem. Eu fujo da câmera. Gosto de produzir, pensar em soluções e composições e não aparecer. Isso não é pra mim. Tem gente que nasceu pra isso, a câmera parece fazer parte da pessoa, e isso é ótimo. Eu estou fora, mas se precisarem bolar umas fotos e uns vídeos de gastronomia me chamem que eu vou!

Essas imagens são só de 1 receita para um quadro dentro de um programa. Já pensou um programa inteirinho de gastronomia? Quanta coisa precisa ser ajustada?

Qual é o gosto que lembra sua infância?

12 out

Costumamos levar para nossa vida aquilo que  vimos na infância, por isso nada é mais triste do que uma criança que não teve a oportunidade de ter experiências, boas de preferência. O gosto da minha infância é o do feijão amassadinho com banana. Minha mãe fazia aquele feijão carioquinha com um caldo grosso, cremoso e colocava arroz. Eu amassava a banana maçã e comia. Adorava isso. Bolo de chocolate com a casquinha durinha. Até hoje tento fazer e não sai parecido.

Tem uma história também de uma vizinha, uma pessoa que cuidava da gente quando éramos crianças. Ela tinha uma mãe horrível: uma pessoa manipuladora, mal-educada, agressiva. Um dia essa vizinha convidou eu e minha irmã para o aniversário dela. A mãe dela tinha feito um bolo prestígio que eu nunca mais comi nem parecido. Molhadinho, doce na medida certa. Lembro que na época fiquei com vergonha de pedir mais. Minha irmã não.

Crédito da imagem: Entrepanelas

Lembro também dos sanduíches de sardinha e maionese das festinhas, copinho de gelatina, bala de côco, gasosa, empadão de galinha, canudinho recheado com doce de leite e côco ou a versão salgada com maionese (dá água na boca só de pensar), caldo de cana com limão, pipoca doce da Rua XV, churros recheado com doce de leite do terminal de ônibus, massa caseira com galinha caipira, cuca de banana, pão caseiro, geleia de uva, sagu, bolo de cenoura, Chiquinho Balançado, pão de queijo… Eu poderia ficar até amanhã falando disso…

Crédito da imagem: Odete de Paula

O gosto da minha infância é de comida boa e a gente tende a guardar aquilo que nos fez bem. Sempre desconfiei de casas que cheiravam à sopa. Vi isso uma vez em um livro e é verdade. A comida além do gosto promove outras sensações e o olfato é uma das mais marcantes. Tem gente que faz café e aquilo cheira a casa inteira. Uma delícia. E flor de laranjeira? Bolo de pêssego? Frango assado?

Ainda bem que é possível ter lembranças e levar isso para a vida toda. E você, qual é o gosto que lembra sua infância?

Tudo se cura na cozinha

9 out

Sabrina Demozzi

Quando eu estava a caminho do Mercado Municipal nesse sábado (08) para comprar a farinha de amêndoa pra testar uma receita de “macarrons” encontrei um velho amigo que foi meu primeiro “chefe” no jornalismo há uns 6 anos atrás, Wagner “o santista”, um apaixonado por modelos de ônibus,  escritor dos bons, dono de um texto conciso e inteligente- como pode ser visto aqui- http://macucoblog.blogspot.com/. É culpa dele alguns preciosismos que eu tenho quando vou escrever, pois ele sempre editava meus textos e dizia pra eu ajustar. Uma pessoa única, um idealista e um amigo sincero.

O Wagner me fez lembrar dos bons tempos em que eu acreditava na profissão de jornalista. Não que eu não acredite, pelo contrário, luto todos os dias para me tornar uma profissional melhor, mas acontecem coisas na vida da gente que fazem qualquer um desanimar. Propostas absurdas, falta de pagamento, atrasos, picaretagens mil. Eu poderia ser antiética e citar pelo menos uns 5 exemplos aqui, um recente até. Mas não posso. Você, aluno de jornalismo, desconfie quando alguém que te falar que “dinheiro não é problema” e “que nós vamos crescer juntos”. Nunca é assim: você não vai crescer junto não. Será explorado, trabalhará muito mais do que o combinado e não vai poder reclamar. E dinheiro, até pro Eike Batista, é problema sim.

É por esses e outros motivos que cada vez mais faço da gastronomia a minha especialização. Ela me ajuda a não desistir de vez da profissão de jornalista e também me ajuda a me manter focada em estudar e me aperfeiçoar. Minha intenção com esse post é fazer com que as pessoas não se deixem enganar com propostas fáceis de trabalho, o “é rapidinho” ou “é fácil, você faz em um dia” é a maior lorota já contada: se fosse tão fácil assim o analfabeto funcional que está te “contratando” faria, não é não?

Cuidado amigos jornalistas. Encontrem no caminho de vocês razões para a jornada ser menos árdua e traiçoeira. Encontrem uma paixão, foquem nela e nem que você não ganhe nada com isso cultive-a. Nem tudo é dinheiro e status. Uma vez uma pessoa me disse: porque ao invés de criticar tudo, você não fala do que gosta? E foi o que eu fiz. Devo muito à comida: ela me fez conhecer pessoas incríveis, cursar outra faculdade, não desistir. A gastronomia me fez uma pessoa melhor porque me ensinou (e me ensina todo dia) que a honestidade é a matéria-prima mais valiosa que existe.

*Fiz os macarrons (foto)- Estava indo tudo bem até eu inventar de colocar corante líquido na massa pra fazer eles de outra cor. A massa ficou muito mole, desembestou inteira… Mas a versão branquinha ficou deliciosa, porém ao contrário do que diz essa simpática senhorinha do vídeo que vou postar pra vocês não é fácil não. Qualquer deslize pode acabar com a receita. Atenção pra quando forem comprar a farinha de amêndoa. Ela tem que estar sequinha, pois se estiver úmida pode comprometer sua receita. E siga EXATAMENTE o que estiver na receita.

 

 

Pavlova: duas versões

7 out

 

 

 

 

 

 

 

 

Fora o fato de que a primeira foto está um pouco melhor, testei esses dias duas receitas aparentemente iguais de Pavlova, um doce de origem russa feito com base de merengue,  creme chantily e frutas, geralmente vermelhas.  Testei uma receita da Nigella se não me engano e o resultado é esse aí da segunda foto. A base de merengue lembrava mais um marshmallow , mas não é ruim.  A primeira foto foi de uma receita portuguesa e o resultado é  um merengue mais firme e quebradiço.

Esse doce é uma ideia bem legal para quem precisa aproveitar claras que foram utilizadas em outras receitas. Além disso, é bem fácil de fazer e fica bonito. Não conheço quem não goste. Vou recomendar um vídeo que passa a receita de forma bem explicadinha.