Arquivo | novembro, 2011

Preconceito não.

25 nov

Sabrina Demozzi

Coisa de gente babaca é preconceito. Contra qualquer coisa: daquelas mais sérias como questões de gênero, sexualidade e raça até as mais digamos, gerais como música, cinema, cultura, hábitos e claro, alimentação. Eu realmente fico p* quando ouço alguém se referindo, por exemplo, aos restaurantes chineses e dizendo “eu não como isso aí porque chinês é tudo sujo” (mas o idiota acha que está arrasando comendo naquele restaurantinho da moda que o chef não costuma lavar as mãos..)  ou “ acho um lixo essa comida aí. Desde quando na Itália se cozinha assim”  ou “na Bahia demoram três dias pra te atender. Povo preguiçoso.”

Ontem (24) foi divulgado um vídeo de um idiota que se auto intitula “Júlio Bambambam” em que ele aparece dirigindo e enquanto dirige, filma um caminhão tombado à beira da rodovia que liga a capital João Pessoa ao município de Campina Grande. Não contendo sua “astúcia” o rapaz classifica a situação como sendo típico de “um paraíba” e, na sequência, incentiva as pessoas a não irem ao Estado uma vez que “não tem mulher e é cheio de viado”. De acordo com mensagem publicada no Twitter, a Ordem dos Advogados da Paraíba vai processar o turista.

Citei esse exemplo que deve ter sido amplamente divulgado em redes sociais, apenas para ilustrar a que ponto chega o preconceito das pessoas. Na tentativa de talvez parecer engraçado ou conseguir se destacar no imenso mar de bobagens que em alguns casos é a internet,  o cara simplesmente acaba com a cultura dos outros, de graça. Como alimentação é também cultura muitas vezes acontece isso também. Vi estes dias um programa “Que Marravilha” em que o Claude foi tirado do sério por um cara que dizia levar sua marmitinha em eventos porque não ia gostar de nada que tivessem preparado. Entre as pérolas como “peixe cheira muito mal, é nojento” e eu aprendi a ser assim e quem quiser que aceite. O Claude uma hora virou pra câmera e falou: Ensinem seus filhos a provar as coisas pra aprender a “treinar” o paladar. Mostrem, sugiram e provem coisas diferentes.”  (era mais ou menos isso). Não sei se isso é preconceito ou ignorância ou os dois, o fato é que antes de comer o cara já saiu falando que o negócio não prestava. Gosto é gosto, mas quando eu me submeto a um experiência, por exemplo,  gastronômica no caso do programa, tenho que pelo menos tentar ser educado, acho.

 Preconceito contra a dieta alheia

Quer ver o circo pegar fogo? Diga que é vegetariano. Ou macrobiótico, ou crudívoro. Ou que você gosta mesmo é de carne. Diga que você não come algo porque optou por isso. Ah, mas o que mais vai ter é gente com argumentos dos mais absurdos para convencer que você está errado. Cada um se alimenta com o que quer, com o que pode, com o que decide. Quem sou eu para dizer a alguém que a forma como me alimento é melhor?

Preconceito contra produtos populares

Pra fazer uma macarronada ideal o certo é macarrão de grano duro. Risoto só se for arroz italiano. Molho de tomate só se for italiano. Molho pesto só com pinoles. Brigadeiro tem que ser gourmet com chocolate Callebaut. Quem foi que disse? Um bom cozinheiro cozinha com o que estiver à sua mão e muitas vezes uma preparação com os melhores ingredientes pode dar errado justamente porque o cara não sabe o que fazer com o básico. O mundo ideal seria se todo mundo pudesse cozinhar pratos clássicos com ingredientes provenientes dos seus países de origem. Mesmo que isso hoje seja possível, pois se encontra quase tudo, não é todo mundo que pode pagar pela origem das coisas. A gastronomia passa constantemente por intercâmbios culturais, a história da alimentação nasceu assim. É ingênuo e pedante acharmos que as coisas são imaculadas e restritas a um grupo de especialistas. As pessoas estão descobrindo receitas e preparações e fazendo-as às suas maneiras com ingredientes regionais. Por que não? Por que não incluir sardinha em um putanesca à brasileira, colocar castanha de caju no Yakissoba  ou fazer um petit gateau de goiabada?  

Nem sei se isso que eu listei aqui pode ser considerado preconceito. Acho que preconceito deve estar relacionado a coisas mais sérias, mas acredito que não custa chamar a atenção para isso, né?

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Não ao preconceito alimentar

24 nov

Amanhã vou finalizar um texto que comecei fazer sobre a questão do preconceito alimentar. Hoje não posso pois estou tomando um vinho branco e ouvindo Leonard Cohen. Vou dividi-lo com vocês e até amanhã…

Por favor, vá embora

13 nov

Sabrina Demozzi

Não tá fácil pra ninguém. Fato. Crise na Europa, nos Estados Unidos, empregos ruins no Brasil (que pagam pouco e exigem muito) e por aí vai. Porém, nada justifica o péssimo atendimento em alguns estabelecimentos de fast food em Curitiba. Já falamos disso antes em relação à demora no atendimento do restaurante que deveria ser fast, mas é que surgiu mais uma variante disso: a má vontade em atender ao cliente.

Crédito da Imagem: Curso de Coaching

Quando não estamos contentes com a situação que nos encontramos na vida, fazemos o quê? Concluímos o ensino médio? Cursamos outra faculdade ou um curso técnico que vá nos preparar para um mercado competitivo? Buscamos oportunidades de cursos gratuitos em universidades para aprender um novo ofício? Senacs e Sescs da vida? Fazemos biscoitos pra vender? Buscamos outro emprego… Corre-se atrás, não é? É muito fácil adotarmos uma postura de coitadinhos na vida. Eu mesma não sei quando terminarei de pagar meus estudos já que terminei uma faculdade e entrei em outra e agora começo um mestrado (em uma universidade federal) que vai tomar (ainda bem!) parte do tempo que dedico a um dos meus empregos.

Nunca trabalhei em uma rede de fast food e tiro meu chapéu a aqueles que fazem isso de sua vida. Porém acredito que o gerente ou sei lá quem deveria observar a postura dos funcionários, precisa estar atento a como o colaborador atende ao cliente e buscar entendê-lo, verificar sua motivação e tentar mantê-los minimamente felizes com o trabalho. Não é o emprego dos sonhos de ninguém trabalhar horas em pé, nos finais de semana e atendendo gente que muitas vezes não sabe o que quer, mas uma vez que me dispus a fazer isso, devo fazê-lo da melhor maneira possível.

Funcionários desmotivados, restaurante vazio

 Tem um restaurante em um shopping de alta classe em Curitiba que tem tudo pra dar certo: cardápio variado e saudável, boa comunicação visual, boa localização e preços ok para um estabelecimento no shopping, porém ele está sempre vazio. Por quê? A funcionária é uma moça que está sempre sentada, quase deitada na bancada. Ela está ali por obrigação e mal fala quando o cliente pergunta alguma coisa. A outra também fica sentada, sem fazer nada. A mensagem visual que elas passam é: por favor, vá embora. E o estabelecimento fica ali, às moscas. Todo mundo sai perdendo: o cliente, o dono do lugar e o funcionário. A consequência é prejuízo.

Mas o que fazer? Se seu restaurante é novo, observe que tipo de público você quer atender. Faça-se presente nas redes sociais, tire fotos dos pratos e conte os benefícios de uma refeição balanceada por exemplo. Gere contexto: Está de dieta? Nós temos o prato ideal pra você! Fale no Twitter, no Facebook (crie uma Fan Page e não um perfil pessoal), coloque uma promotora perto dos cinemas (no caso de shopping), faça promoções nas redes sociais (Fã no Facebook ganha uma pizza brotinho na compra de uma calabresa média). Atenda ao público vegetariano e quem tem restrições, como os diabéticos. Veja o que o público quer. Treine uma dessas funcionárias que fica no caixa o dia inteiro pra monitorar isso nas redes sociais.

Nesse caso as redes sociais funcionam bem. Mas antes de sair por aí contratando uma empresa pra fazer isso pra você, analise se o seu público é usuário dessas redes, do contrário corre-se o risco de ficar falando sozinho. E não abandone seu negócio na internet. Criou, tem que cuidar diariamente, monitorando e ouvindo o que as pessoas querem.

Eu fico particularmente triste quando vejo um negócio que não dá certo. Esse que comentei acima, merecia ter melhores resultados, mas é preciso que se faça alguma coisa, pois a coisa é cíclica. Mau atendimento, cliente não volta mais e comenta com os outros, funcionários desmotivados, dono que arca com o prejuízo. Porém, desejo que alguns estabelecimentos que faltam o respeito com o funcionário obrigando-o a jornadas exaustivas e tratamento abusivo quebrem e percam os clientes. Eu não compactuo com isso e deixo de ir ao estabelecimento, sem dúvida.

No site Gestão de Restaurantes é possível encontrar uma infinidade de informações sobre marketing, cursos, atendimento, notícias… enfim, várias ferramentas para quem tem um estabelecimento de alimentação. Vale a pena dar uma conferida.

Os Incompreendidos

6 nov

Empresto o título de um de meus filmes preferidos para fazer uma brincadeira com alguns alimentos que considero negligenciados. Os Incompreendidos (Les Quatre Cents Coups, 1959) é um filme do diretor francês François Truffaut que narra a vida de Antoine Doinel, um menino de 14 anos que é meio esquecido pelos pais, enfrenta dificuldades com o modelo autoritário  na escola e encontra em pequenos delitos e no cinema uma maneira de fugir e chamar a atenção. Um filme bem bonito e de certa forma autobiográfico.

Os meus incompreendidos, porém sofrem de outro mal. Eles são escorraçados das receitas e esquecidos nos sacolões. Poucos são aqueles que se dedicam a dar uma chance para eles. Desde criança, parece, os incompreendidos são chutados e achincalhados. Ao lado de estrelas como as batatas, mandiocas e tomates, os incompreendidos amargam a condição de serem eternamente coadjuvantes no imenso universo dos hortifrutigranjeiros. Um desses alimentos é a beterraba. Planta herbácea da família das Quenopodiáceas. Rica em ferro é utilizada também na produção de açúcar. Rica em Vitaminas B1, B2 e também em B5 e vitamina C. Quase tudo pode ser utilizado na beterraba as cascas servem como adubo e também como aperitivo, as folhas podem ser utilizadas em preparações como saladas, farofas, refogados e até como recheio de pães e muffins salgados. A beterraba é bastante utilizada em sopas, cremes e saladas.

Há vida para a beterraba além da salada

Quase todo buffet serve a salada de beterraba, cozida até a morte e embebida em vinagre. Não precisa ser assim. Uma sugestão é não cozinhar a beterraba e sim assá-la em papel alumínio por uns 40 minutos. Além de não perder os nutrientes, ela conserva a cor e a textura… Mas enfim, o papo não é esse. Os anos de negligência com a beterraba fizeram com que muita gente já torça o nariz antes mesmo de provar. Receitas deliciosas como o risoto de beterraba, por exemplo, que além de bom é bem bonito visualmente é considerado um prato que “é pra quem gosta muito de beterraba” (lógico, né? Assim como um risoto de camarão é pra quem gosta de camarão….)

Brincadeiras à parte, eu quis fazer algo diferente com a beterraba. Nem tão diferente assim, mas fiz um nhoque (ou Gnocchi) de beterraba e páprica doce. A ideia era dar aquele gostinho da sopa da beterraba, a Borscht que é uma sopa de origem russa. Utilizei os mesmos ingredientes da sopa e fiz o nhoque. Geralmente, o nhoque de beterraba fica muito pálido e esse eu tentei deixar o mais escuro possível e por isso depois que assei as beterrabas, apenas aferventei em água para eu conseguir aquela água bem vermelha. Depois fiz um purê incluindo cenoura, cebola, suco de limão, caldo de carne e a páprica. Se for no inverno sugiro um molho bem forte com músculo cozido na cerveja escura por exemplo, até desmanchar. No verão um molho de limão e creme de leite fica bom. O molho não pode “mascarar” o nhoque já que o sabor é bem delicado. Aproveitei que estava inspirada e também fiz um nhoque tradicional de mandioquinha e cenoura. Você pode fazer aí em sua casa ou restaurante e dar um nome bonito tipo “Duo de gnocchi de raízes”… chique, né?

A foto não é lá 100% e eu tinha acabado de jogar um manteiga de sálvia e não mexi direito.. enfim. Mas garanto que ele é macio e bem gostoso.

Pra fechar, fiz um Bolo Fudge de Chocolate recheado com figo (outro alimento que considero um incompreendido). Tenho uma amiga que fala que figo é comida de adulto e outra que diz que figo é uma verdura que não deu certo… Bem, depois que o pessoal comeu o bolo, acho que mudaram de ideia. Essa massa é simplesmente sensacional e literalmente derrete na boca.   A receita do Bolo Fudge você encontra aqui: http://panelinha.ig.com.br/site_novo/receita/receita.php?id=300059 e o recheio de figo é só pegar aqueles em conserva, aquecer em sua própria calda e processar. Fica tipo uma geléia. Utilize aquela calda pra umedecer o bolo.