Preconceito não.

25 nov

Sabrina Demozzi

Coisa de gente babaca é preconceito. Contra qualquer coisa: daquelas mais sérias como questões de gênero, sexualidade e raça até as mais digamos, gerais como música, cinema, cultura, hábitos e claro, alimentação. Eu realmente fico p* quando ouço alguém se referindo, por exemplo, aos restaurantes chineses e dizendo “eu não como isso aí porque chinês é tudo sujo” (mas o idiota acha que está arrasando comendo naquele restaurantinho da moda que o chef não costuma lavar as mãos..)  ou “ acho um lixo essa comida aí. Desde quando na Itália se cozinha assim”  ou “na Bahia demoram três dias pra te atender. Povo preguiçoso.”

Ontem (24) foi divulgado um vídeo de um idiota que se auto intitula “Júlio Bambambam” em que ele aparece dirigindo e enquanto dirige, filma um caminhão tombado à beira da rodovia que liga a capital João Pessoa ao município de Campina Grande. Não contendo sua “astúcia” o rapaz classifica a situação como sendo típico de “um paraíba” e, na sequência, incentiva as pessoas a não irem ao Estado uma vez que “não tem mulher e é cheio de viado”. De acordo com mensagem publicada no Twitter, a Ordem dos Advogados da Paraíba vai processar o turista.

Citei esse exemplo que deve ter sido amplamente divulgado em redes sociais, apenas para ilustrar a que ponto chega o preconceito das pessoas. Na tentativa de talvez parecer engraçado ou conseguir se destacar no imenso mar de bobagens que em alguns casos é a internet,  o cara simplesmente acaba com a cultura dos outros, de graça. Como alimentação é também cultura muitas vezes acontece isso também. Vi estes dias um programa “Que Marravilha” em que o Claude foi tirado do sério por um cara que dizia levar sua marmitinha em eventos porque não ia gostar de nada que tivessem preparado. Entre as pérolas como “peixe cheira muito mal, é nojento” e eu aprendi a ser assim e quem quiser que aceite. O Claude uma hora virou pra câmera e falou: Ensinem seus filhos a provar as coisas pra aprender a “treinar” o paladar. Mostrem, sugiram e provem coisas diferentes.”  (era mais ou menos isso). Não sei se isso é preconceito ou ignorância ou os dois, o fato é que antes de comer o cara já saiu falando que o negócio não prestava. Gosto é gosto, mas quando eu me submeto a um experiência, por exemplo,  gastronômica no caso do programa, tenho que pelo menos tentar ser educado, acho.

 Preconceito contra a dieta alheia

Quer ver o circo pegar fogo? Diga que é vegetariano. Ou macrobiótico, ou crudívoro. Ou que você gosta mesmo é de carne. Diga que você não come algo porque optou por isso. Ah, mas o que mais vai ter é gente com argumentos dos mais absurdos para convencer que você está errado. Cada um se alimenta com o que quer, com o que pode, com o que decide. Quem sou eu para dizer a alguém que a forma como me alimento é melhor?

Preconceito contra produtos populares

Pra fazer uma macarronada ideal o certo é macarrão de grano duro. Risoto só se for arroz italiano. Molho de tomate só se for italiano. Molho pesto só com pinoles. Brigadeiro tem que ser gourmet com chocolate Callebaut. Quem foi que disse? Um bom cozinheiro cozinha com o que estiver à sua mão e muitas vezes uma preparação com os melhores ingredientes pode dar errado justamente porque o cara não sabe o que fazer com o básico. O mundo ideal seria se todo mundo pudesse cozinhar pratos clássicos com ingredientes provenientes dos seus países de origem. Mesmo que isso hoje seja possível, pois se encontra quase tudo, não é todo mundo que pode pagar pela origem das coisas. A gastronomia passa constantemente por intercâmbios culturais, a história da alimentação nasceu assim. É ingênuo e pedante acharmos que as coisas são imaculadas e restritas a um grupo de especialistas. As pessoas estão descobrindo receitas e preparações e fazendo-as às suas maneiras com ingredientes regionais. Por que não? Por que não incluir sardinha em um putanesca à brasileira, colocar castanha de caju no Yakissoba  ou fazer um petit gateau de goiabada?  

Nem sei se isso que eu listei aqui pode ser considerado preconceito. Acho que preconceito deve estar relacionado a coisas mais sérias, mas acredito que não custa chamar a atenção para isso, né?

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