Arquivo | dezembro, 2011
Imagem

A 3 dias de 2012

28 dez

Sabrina Demozzi

O objetivo desse blog começou como um simples relato das minhas atividades ligadas à gastronomia em 2008. Muitas águas rolaram e hoje, às vésperas de um novo ano, quase 4 anos depois o Temperomental finalmente vai virar .com com direito a logomarca, página no Facebook, no Twitter, podcast e vídeos. Estou esquematizando tudo certinho para quem sabe até o aniversário de 4 anos do blog estarmos com tudo em cima.

Quem me conhece sabe que o que pretendo com Temperomental não é passar receitas ou dar dicas culinárias, eu busco despertar a cultura que existe no alimento e no ato de se alimentar. Eu gosto de comida muito antes do nascimento de blogs e programas de televisão voltados ao assunto. Desde criança, quando fiz meu primeiro arroz e queimei eu sabia a importância que a comida tinha na vida de uma pessoa. Essa importância vai além da nutrição, mas constituí a formação do gosto, da memória gustativa e do repertório gastronômico de alguém. É isso que me interessa.

Pra mim o alimento é social, tem história e significado e por isso o valorizo. Em alguns posts esse ano critiquei quem não valoriza o alimento ou quem prepara as coisas de qualquer jeito. Acho realmente que muito se fala em comida, mas são poucos aqueles que realmente a tratam com respeito. Sobre isso falaremos em 2012. Mas agora vou fazer alguns tópicos que mostram o que eu acho que foi bacana em 2011 e o que não foi tão legal assim. Vamos ver?

 

seta verde cima

Sobe

– O fim da ditadura de “tendências”- Pelo menos em portais de notícias e blogs o povo não quer saber mais de matérias camufladas (com cara de matéria e alma de propaganda) que ditam as coisas como: o fim dos cupcakes, a moda agora é canollis, tendência americana chega ao Brasil, cervejas especiais são a última porta para o paraíso… Se eu pudesse eu colocaria aqui os comentários do pessoal que são sempre ótimos.

– Democratização e boca no trombone – O acesso a alimentação fora do lar e também o grande acesso das pessoas à internet e as redes sociais possibilitaram que quem não gosta de algo logo reclame na rede. É só dar uma olhada no Facebook e ver o poder que uma postagem tem: se o cara tem 150 amigos e fala lá de um cachorro quente que ele comeu e era ruim vai chover gente argumentando. O Twitter então consegue resolver mais situações do que no SAC das empresas, em alguns casos. É claro que muitas vezes as críticas podem ser infundadas, mas que agora “people have the power” não há dúvida.

– Eu cozinho, tu cozinhas- Sou uma defensora de que todo mundo aprenda a cozinhar. Nem que seja um pouquinho. Pra evitar desperdício, ser passado pra trás, aproveitar melhor os alimentos… essas coisas (listo aqui nesse post 4 motivos pra você aprender a cozinhar ). As pessoas estão cozinhando e isso é um bom sinal. Mas não custa lembrar que há uma diferença gigantesca entre cozinhar em casa e ser considerado um chef. É outro departamento.

 

Desce

– Propaganda enganosa e desconto maquiado- uma das notícias de 2011 foi o que o IDEC revelou sobre as ofertas de sites de compras coletivas. O pessoal simplesmente dava desconto em algo que já custava aquele valor. Sem contar é claro que muita gente reclama que o atendimento fica mais, digamos, ríspido quando o consumidor diz que tem um cupom de desconto. Não é culpa do atendente, mas sim da pessoa responsável pelo marketing do estabelecimento: se o cara não consegue avisar aos funcionários que durante aquele período a demanda será maior, então não anuncie esse tipo de promoção.

– Tratamento desumano aos funcionários- Começou com uma denúncia no McDonald´s que pagava a seus funcionários menos de R$ 3 a hora de trabalho, sem contar que estes ficavam a disposição do estabelecimento quando aumentasse a demanda. Nesse vídeo http://jornadacriminosa.com.br/ é possível conferir mais informações. O que esse tipo de manobra mal intencionada causou? Os jovens não querem mais trabalhar com esse tipo de serviço, a mão de obra está escassa e os que aceitam tem que dar conta dos clientes (que não diminuem). Como lidar?

 

– Contraponto entre realidade e o que é visto na universidade- Uma matéria interessante da Folha indicava que um terço dos alunos de gastronomia se desilude e larga o curso isso sem considerar que em alguns casos o cara simplesmente percebe que não quer fazer aquilo da vida, tem uma postura de superioridade em relação aos trabalhadores sem “formação” e não apresenta um bom trabalho. Está mais do que na hora  do aluno entender que a gastronomia do dia a dia não passa na TV. Ser chef e ser reconhecido não significa necessariamente aparecer nas mídias. O cara que faz um curso de gastronomia para ser reconhecido em jornal e em propaganda de faculdade precisa seriamente rever seus objetivos.

 

Anúncios

Algumas ideias para o Natal

13 dez

É inevitável não falar do Natal, ou melhor, da ceia Natalina em um blog de gastronomia. Ainda que eu não seja afeita do oba a oba e dos excessos nessa época do ano acho realmente que essa é uma data importante, um período pra se reunir com a família e comer junto. Durante o ano inteiro poucos são aqueles que têm a oportunidade de partilhar uma refeição com seus familiares e então o Natal é uma boa época para isso. Óbvio que vai ter um tio que vai dizer que você já foi mais magra, o seu irmão vai beber demais e falar besteira, seu pai vai contar piadas que todos vão rir por educação e sua mãe sumirá misteriosamente (ok, relato pessoal) deixando a ceia pela metade. Mas tudo bem.

O que eu não gosto nessas festividades é o auê, a fuzarca. Tem um filme muito ruim que passa todo ano no Natal em que a atriz Jamie Lee Curtis tem que preparar a ceia de Natal pra esperar a filha que ela não vê faz tempo. Em uma das cenas ela tem que ir a um supermercado que parece uma arena de batalha: correria, gritaria, gente se empurrando pra pegar um peru. Um negócio dantesco. Daí a ceia dá errado, cai tudo, enfim uma comédia ruim que provoca mais agonia do que riso. Cito esse filme porque em alguns casos é o que acontece mesmo e por quê? E se não tiver peru? E se não tiver dinheiro? E se eu trabalhar até tarde? Improvisa, bebê. O negócio é ser feliz e não se preocupar tanto.

Vou sugerir abaixo alguns sites que vão ajudar quem vai preparar diferentes tipos de ceia. Pra muita gente, pra pouca gente, mais elaboradas, mais populares e até vegetariana. Lembrando que essas páginas estão disponíveis nesse momento e pode ser que no ano que vem saiam do ar, ok? Então vamos lá:

Sadia

O site da Sadia é sempre bom e dá opções bem interessantes que vão desde preparações simples como mais elaboradas. Os produtos sugeridos são fáceis de achar e não pesam no bolso.

http://www.sadia.com.br/suaceia/

Perdigão

Com menos opções as sugestões do site da Perdigão vão ajudar quem é mais objetivo. Da mesma forma, sugestões bacanas e preços acessíveis.

http://www.perdigaokitsnatalinos.com.br/receitas.cfm?codigo=1

 

Nestlé

Receitas que já estão arraigadas no gosto brasileiro, ou seja, preparações que você já comeu alguma vez na vida. Chance de erro: zero, pelo menos do que diz respeito à familiaridade dos pratos. Eles têm um link só com receitas de final de ano, mas é tanta receita em outros links do site que dá pra você inventar o que quer em sua ceia. E vários livrinhos pra baixar.

http://www.nestle.com.br/site/cozinha/receitas.aspx#/&tema=receitasFestasDeFinalDeAno    

 

Site do GNT

Mais requintado e que pode exigir um pouco mais do cozinheiro. Receitas incríveis com os vídeos e o passo a passo. Algumas são mais caras e contam com ingredientes que podem não ser acessíveis pra todo mundo, mas não custa dar uma conferida. Você encontra receitas de chefs renomados como Gordon Ramsay, Claude Troisgros, Jamie Oliver e Nigella. Esses dois últimos apresentam receitas mais “fáceis”, mas ainda sim com produtos lá da terra deles.

http://gnt.globo.com/receitas/       

 

Ceia Vegetariana

Os vegetarianos encontram nesse livrinho algumas sugestões bem interessantes para a ceia ou para outras festas. Como o vegetariano não come nada de origem animal pode parecer complicado conceber uma ceia natalina, mas não é o caso, pois muitas adaptações vêm justamente com a intenção de trazer o “sabor do natal” nas receitas.

http://www.vegetarianos.com.br/natal%20vegetariano.pdf

http://pt.scribd.com/collections/2715474/Receitas-Vegetarianas

 

Ceia típica americana

Se você é do tipo que gosta das coisas tradicionais, o canal americano Food Network traz preparações típicas dos Estados Unidos para celebrar o Natal. Lá eles ficam o dia inteiro comendo e um dia de festa é composto de café da manhã, brunch e o jantar. Porque o brunch deles é composto de vários tipos de alimentos, é quase um almoço, chá da tarde, pré jantar…

http://www.foodnetwork.com/holiday-central-christmas/package/index.html

Crianças na cozinha

11 dez

Programa “Junior Master Chef Austrália”  traz crianças na faixa etária de 8 a 12 anos para competirem como adultos na cozinha

Sabrina Demozzi

O programa Master Chef é uma produção britânica que foi adaptada pela produtora australiana “Shine Australia” em 2010. Ele tem basicamente todas as características dos  reality shows e programas de competição de cozinha com juízes, temas diversos a serem cumpridos, etc, etc. A diferença é que ao contrário do Top Chef exibido pela Sony, Master Chef não é protagonizado por chefs profissionais, mas sim por entusiastas e pessoas que acreditam que cozinham bem. No programa elas são julgadas por suas habilidades e criatividade na execução das preparações. Os juízes não têm o mesmo carisma de Tom, Padma e Eric Ribert de Top Chef, ao contrário, com exceção de um ou outro todos são afetadíssimos, cheios de pompa e circunstância.

Poderia ser apenas mais um programa de TV ruim, o fato é que além de prestar um desserviço para a gastronomia por estimular apenas a competição e não o conhecimento gastronômico (Carlos Alberto Dória no seu excelente blog cita um texto do filósofo Robert Redeker que fala sobre isso- Cozinha hiper-midiática não é boa para a gastronomia) o programa contribui para passar uma imagem bastante equivocada da carreira de chef.

A primeira temporada foi veiculada em julho de 2010. 5000 crianças se inscreverem e 50 foram escolhidas para participar das competições. As crianças são submetidas a provas de cozinha condizentes com a sua idade e julgadas. É uma gritaria, uma bagunça, a platéia berrando. Um circo, enfim. (Com todo o respeito ao circo, ok?). Poderia ser uma competição de qualquer coisa, cozinha é só um tema. Como o filósofo Robert Redeker escreve “Em “Master Chef” – assim como em “jantar quase perfeito” na M6 – TF1, não se valoriza a cozinha, mas a competição. Na verdade, transforma-se a cozinha num avatar do espectáculo desportivo para destruí-lo. Assim, como nos reality shows, “Master Chef” celebra o culto da concorrência, a lei do mais forte, desloca violentamente a atividade culinária para o universo da máxima bárbara: “o homem é o lobo do homem. ” (Tradução de Carlos Alberto Dória)

Já pensou isso considerando que os competidores são crianças? Quem se beneficia com uma pressão dessas aos 8, 9 anos de idade? Tudo bem que no programa umas crianças que até gostam de cozinhar e tal, eu mesma com 9 anos já cozinhava e sempre gostei, mas daí a estimular essa competição nessa idade,  será mesmo saudável? Será que essa criança que foi submetida a esse processo vai se tornar um grande chef ou a derrota no programa pode fazê-la desconfiar de suas capacidades e torná-la alguém problemática em relação a sua auto-estima? Ainda que se apregoe que não há “perdedores” na competição, não sei até que ponto uma competição pensada para adultos pode ser benéfica para crianças que nem sabem ainda o que querem fazer da vida. E elas são cobradas no programa: a textura dessa cenoura não está boa, esse molho não está ideal e assim por diante… Como elas podem responder a isso se o “treinamento” pelo qual elas passaram provavelmente vem de casa,  das preparações das mães e das avós, que salvo raríssimas exceções não possuem técnica formal de cozinha.

Pra quem não tem TV a cabo tem alguns episódios no YouTube. Confiram e vejam o que acham. Vou colocar aqui o vídeo com a chamada do programa pra vocês irem se ambientando com o negócio. No final da semana vou sugerir alguns sites e livrinhos pra quem vai fazer a ceia e quer gastar pouco, ok?

Dieta Mediterrânea- (Dieta Mediterránea, 2009)

7 dez

Sabrina Demozzi

Ao contrário do que o título do filme possa indicar o filme de Joaquín Oristrell não faz referência à consagrada “dieta mediterrânea” usada por celebridades e afins. É, porém, uma história de amor diferente que tem como pano de fundo a paixão pela comida. Olivia Molina é Sofia, que desde pequena esteve em contato com as panelas no restaurante litorâneo do pai, torna-se chef e envolve-se com dois homens Frank (Alfonso Bassave) e Toni (Paco León). O primeiro vê em Sofia um gênio da cozinha que precisa alçar voos maiores do que a cozinha  do estabelecimento familiar, o segundo mostra-se um homem convencional que tem o desejo de “domar” Sofia e torná-la mãe e esposa. Somado a isso temos a personalidade forte de Sofia e a difícil relação com a mãe, o que mostra talvez uma inveja por parte dessa com a altivez da filha em sair e buscar seu caminho ou incapacidade de lidar com ela. Por outro lado, a mãe quer que a filha estude e tenha um “emprego” de verdade e não trabalhe na cozinha.

Imagem

Sofia relaciona-se melhor com os homens, tanto que se envolve emocionalmente e fisicamente com os dois. Enquanto Frank é impetuoso e aventureiro, Toni é o porto seguro, a comodidade. Sofia lida bem com isso e se completa. Nesse ínterim de descobertas pessoais, Sofia cresce profissionalmente abrindo seu próprio restaurante e se aperfeiçoando. Ela “evolui” e essa evolução é retratada com as descobertas na cozinha. Quando a situação pessoal começa a fugir do controle, Sofia vai se tornando cada vez mais técnica e acaba se torna uma espécie de “gênia da cozinha”, uma discípula de Ferran Adriá e substitui as preparações tradicionais por inovações em sua cozinha laboratório.

Não sei se é intencional, mas vemos uma crítica a essa forma de cozinhar. Se antes Sofia era uma mulher arrebatadora, generosa, passional (tal qual sua comida) agora ela é séria, usa preto, humilha funcionários que não executam as tarefas com perfeição e toda a cozinha parece sombria, meio fria (tal qual sua comida, como irá se revelar mais tarde). Não vou contar o final do filme, mas a redenção de Sofia virá quando decidir por qual caminho irá seguir. Óbvio né?

Imagem

Não acho um grande filme, ainda que o tema da gastronomia seja tratado aqui de forma diferente. Mesmo que uma relação a três busque trazer uma “pimenta” à história e faça uma bonita referência ao filme “Jules e Jim” de François Truffaut, a premissa é sempre a mesma a “comida tem que ter alma”. Convenhamos que isso já foi explorado com maestria em outros filmes como a “Festa de Babette” e “Soul Kitchen”, para dar apenas dois exemplos. Não é um filme ruim, mas pelo menos em mim não despertou grandes paixões. A antítese entre a “cozinha sem alma” (gastronomia molecular) e a volta aos pratos tradicionais me parece ser um assunto meio batido, ainda que eu admire a posição do diretor em retratar esse ponto de vista.  Ele consegue fazer isso de forma sutil sem soar nostálgico ou contra “a evolução da cozinha”.

Imagem

(Dieta Mediterránea, 2009)

Direção: Joaquín Oristrell

Roteiro: Yolanda García Serrano, Joaquín Oristrell

Gênero: Comédia

Origem: Espanha

Duração: 100 minutos

Eternamente jovens

1 dez

Sabrina Demozzi

Li uma “matéria” ontem que fez eu me perguntar se eu sou burra ou estou ficando. Explico: a matéria publicada na Folha.com trazia a seguinte chamada “Receitas que já foram sucesso em restaurantes caem em desuso” daí você clicava para ver o texto e conferir algum aspecto cultural que mostrasse como isso ocorreu  e o que você encontra é um texto com imagens (produzidas) de restaurantes em São Paulo que trazem justamente os pratos que caíram em “desuso” como o Petit Gateau, Estrogonofe, Camarão na Moranga e outros.

 O serviço é completo com preços e informações do local. Em outro link é possível clicar e conferir uma galeria de imagens dos pratos que “foram sucesso e hoje são considerados cafona”.  Considerados por quem? E o “desuso” pode ser comum em São Paulo, mas não pode ser declarado como uma verdade universal, uma vez que aqui em Curitiba, por exemplo, é chique ainda pedir Petit Gateau e comer Camarão na Moranga. Pra muita gente esse último é sinônimo de festa, de receber alguém importante. É carro chefe inclusive em renomados restaurantes da cidade.

Não vou nem falar aqui dos critérios escolhidos para escrever o texto, não sei quais foram, mas sei que ele é no mínimo pouco informativo sobre a questão cultural de se valorizar determinadas preparações em detrimento de outras,  atualmente. Fica claro que o foco era indicar estabelecimentos que serviam os tais alimentos que caíram em desuso- ora, se eles caíram mesmo em desuso porque os restaurantes indicados na matéria ainda o fazem?- e ilustrar com um approach de comportamento. Mas não deu.

Além disso, a discussão sobre alimentos “cafona” é tão batida quanto inútil. E daí que o fulaninho da silva, crítico de gastronomia de sei lá onde não aguenta mais ver Petit Gateau em São Paulo? E daí que o pseudo-crítico do outro blog acha que tomate seco e catupiry se popularizam? Desde quando comida tem que ficar restrita a um grupo de pessoas que acha ser capaz de lançar tendências e ditar o comportamento dos outros? A origem de grandes pratos universais começa no povo e em suas necessidades. É muito superficial achar que as coisas se extinguem simplesmente porque não aparecem mais. E também é ingênuo acreditar que algo tão dinâmico como a gastronomia poderia ficar inerte, imune ao tempo e as mudanças.