Arquivo | junho, 2012

Quando a gente ama

30 jun

Qualquer coisa serve para relembrar.

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– Crédito da imagem: Revista Veja Curitiba- Guia Comer e Beber

Sabrina Demozzi

Conversei com uma senhorinha semana passada que ficou viúva há pouco tempo. Toda perfumadinha, de cabelinho branquinho e brinco de pérola ela me falou que voltava da Confeitaria das Famílias onde costumava tomar um chá com seu velhinho toda quarta-feira depois da novena na Igreja Perpétuo Socorro. Ela disse que fazia isso há mais de 20 anos e lembrava exatamente do que eles comiam ali desde que se conheceram. Cházinho e madrileno (aquele doce folhado recheado com doce de leite). Fiquei pensando nesta história.

Nós falamos em memória gustativa quando nos referimos a essas reminiscências de nossa vida relacionadas à comida. Por exemplo, um evento de sua vida, triste ou feliz, pode fazer você ver determinadas preparações de forma diferente. Fui em um velório uma vez em que as pessoas serviam bolo de chocolate. Parecia gostoso, mas não é próprio da nossa cultura comer em velório, não é?

Nos damos conta dessas situações quando elas nos fazem falta. Pode ser por um motivo como uma dieta, em que a pessoa não come algo que gosta muito porque não pode, uma situação de morar em outro país quando a pessoa lembra do feijão caseiro da mãe, por uma situação financeira que a impossibilita de gastar com isso. A memória gustativa da gente é capaz de nos remeter a situações, períodos, circunstâncias.

Quem nunca se pegou lembrando de alimentos que não existem e associando isso à época em que vivia? Eu, por exemplo, sou do tempo da bolachinha Fofi´s, da bala Soft e do salgadinho Miliopã. Anos 80 total. Tudo isso faz parte da nossa memória, de nossa história e de quem nós somos.

Pensei na senhorinha: será que ela não fica triste de ir na Confeitaria sozinha e ficar lembrando do velhinho dela? Não parecia pelo menos. Acho que tristeza maior é não ter lembrança nenhuma.

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Desculpa, mas você não é chef.

14 jun

Nem eu.

 

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Sabrina Demozzi

Alex Atala, um dos melhores chefs do mundo de acordo com a Revista Restaurant escreve em seu livro (o excelente Escoffianas)  que prefere ser chamado de cozinheiro a chef. Um bom chef é antes de tudo, um ótimo cozinheiro, como é o caso do nosso premiado chef paulista. Pra chegar ali, ele estudou, trabalhou e buscou se aperfeiçoar. Foi pioneiro nessa chamada valorização da gastronomia brasileira, principalmente na busca por conhecer melhor ingredientes da Amazônia e adaptá-los ao paladar do comensal urbano de classe alta da principal capital econômica do Brasil.

Alex é só um exemplo. Milhares de outros chefs ou cozinheiros acordam cedíssimo. Ficam horas em pé, trabalham até de madrugada, não tem finais de semana e as datas comemorativas são para os outros.  Não fazem outra coisa a não ser cuidar de um restaurante. Pensam e respiram comida. Um chef, não apenas cozinha e recebe prêmios, ele precisa gerenciar equipes, controlar estoques, cardápios, enfim, é um trabalho bastante árduo, apesar de recompensador. Neste sentido, a menos que o trabalho infantil seja legal no Brasil, o que não é, uma criança não pode ser chamada de chef, não é?

Afinal ela não TRABALHA como chef. Caracterizar uma criança com um toque (o chapéu de cozinheiro) e o dolmã (a roupa do cozinheiro) não a torna um chef de cozinha mirim como nos faz crer alguns programas de televisão, livros e reality shows. Ela é no máximo uma criança que sabe preparar algumas coisas com supervisão de adultos. Eu não vejo e nunca vi uma criança chef desossando uma perna de carneiro, acordando de madrugada pra comprar peixe,  afiando uma faca, limpando lagostas e cortando cebolas à brunnoise com perfeição. Então, com todo o respeito essa criança não é chef. Não na acepção profissional da palavra.  

Tornou-se comum no jornalismo online e programas de variedade emprestar símbolos da cozinha pra conferir certa sofisticação às coisas. A “mini chef ensina a fazer um cupcake de chocolate” para as crianças. Mini-chef lança livro sobre sanduíches saudáveis para o lanche. Saber cozinhar, insisto, não torna ninguém chef. É lógico que existem crianças que desde cedo demonstram aptidão para o trabalho de cozinha. Inúmeros chefs renomados tiveram suas referências primeiramente em casa, observando a mãe, o pai, os avós, enfim, a cozinha doméstica, cotidiana e de festa. Mas para eles tornarem-se chefs precisaram chefiar uma cozinha, não é? Ser chef vai além das representações midiáticas. É uma profissão como qualquer outra que exige dedicação, aperfeiçoamento e muito trabalho.

Por um amor que não exija jantares especiais

5 jun

Sabrina Demozzi

 

Com a proximidade do Dia dos Namorados a gente vê umas coisas que merecem um post. Principalmente com relação à comida (em vários sentidos, ok.) Quase todos os estabelecimentos correm para atender àqueles que procuram uma noite especial, servindo (e explorando, em alguns casos) preparações especiais, afrodisíacas e feitas especialmente para aquela data. Tudo ok. Como uma data comercial é claro que isso deve ser explorado e eu não sou ninguém pra julgar isso.

Porém, falando por mim como pessoa física e não jurídica, defendo que  as pessoas encontrem amores que não exijam jantares especiais. Ou que pelo menos, não precisem de uma data para isso. Você vai argumentar me dizendo que a vida é corrida e os casais têm poucas chances para se verem e compartilharem momentos juntos, então é preciso isso. Sim, seu argumento é válido e concordo. O que não concordo é essa onda de tornar tudo especial. Como se a vida já não fosse suficientemente interessante pra eu ter que “preparar” tudo, ensaiar e postar no Facebook depois.

Eu falo mal, mas eu gosto: Curta a PÁGINA DO TEMPEROMENTAL NO FACEBOOK

Eu sinceramente desejo que as pessoas encontrem namorados e companheiros que possam compartilhar um pãozinho. Um picadinho, um feijão com arroz. Eu desejo que as pessoas não precisem se vestir formalmente pra comer uma pizza e que encontrem alguém com quem tomar um vinho barato em um copo de plástico. Sinceramente, desejo às pessoas que encontrem amores que achem que todos os jantares são especiais, e não custam caro.

O Dia dos Namorados existe, é inevitável brigar contra isso, e isto está fora dos meus objetivos. Dia 12 de junho as mesas estarão postas, os cardápios especiais já foram preparados e eu espero que você que vai a um restaurante com seu amor, possa realmente curtir e sentir-se bem. Mas pense com carinho (o tempo é de amor, gente) nos desejos que descrevi acima.